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Passa Por Lá

Passa Por Lá

02
Abr14

legado

Carolina
um dia vou partir, certo! dessa partida sem retorno pouco sei, pouco se sabe. pouco importa. importa só o medo que tenho de deixar o que deixo para lá de mim, para quem de fora de mim.

quero deixar um rasto de mim, uma história do que fui, que mais que  tudo me orgulhe a mim, que só me envergonhe das vezes que ruborizei de paixão, de nervosismo e de ânsias de coisas melhores... 
quero um rasto de mim, repleto dos outros, cheio das cores, não da minha roupa, mas da minha alma. imenso em palavras, as minhas, as escritas, as ditas, as gravadas nos passos que dei, nas viagens que fiz, nas photos que mostrei aos meus. 
quero um rasgo que para lá do sangue fique numa memória maior que a dos retratos das salas, dos álbuns ou das gavetas, que é onde devem estar as fotos dos que partem, há mão da nossa recordação, num lugar de calma constante. 

quero deixar um legado, do que sou, do que já fui, e quero um legado maior, de uma existência que não se extinga, e que velha ou nova, permita que se diga, se mais por aqui estava, mais faria.
quero deixar no chão marcas de pés descalços e histórias nos sapatos que calcei, naquele dia, naquele lugar, contigo, com os irmãos, os pais, os filhos os homens, aos amigos, a alma, o corpo, a carne e a respiração.
uma cambalhota de incógnitas, ficções e imaginações, em baús, armários, roupa, sapatos. que dê gosto aos meus netos e filhos passear com ela vestida, cheios de estilo, cheios de orgulho, orgulho que vá para lá do vintage, orgulho de pertença, a um família, a um valor, a um legado.  
quero que os castiçais da minha avó não se partam, e os serviço de jantar da outra avó, se continue a usar, saiam da minha casa vazia, para o aparador e mesa de quem é meu num sempre que depois de mim, não tem um fim...

não quero linhas, nem limites, um legado não espera, não têm pausas... não quero aplausos ou bocejos. 
um legado não têm filas, não gosta de compassos, e nunca para à espera. ultrapassa riscos, segue em frente, quer caminhar num tempo que o relógio não mede.
quero um legado meu, com o eu que está sempre para lá de mim. aquele que pode nem falar, nem pensar para existir... que se move num tique de mãos, numa herança genética, numa herança de contextos e valores, num sinal, numa cicatriz, numa historia deturpada, de tantas vezes que foi contada.

quero, tenho, terei. sei, sinto, 
já tenho um, veio de lá para mim, não é todo meu, mas meu já é, vou continua-lo. já o continuo! 

os legados devem ser sempre vivos, na incapacidade de os mover, quero deixar ao meu a energia capaz para que pelo tempo que o tempo lhe permitir, se mover com ele... 
quero que fique nos caracóis de outra menina, nas bochechas, na sua teimosia, no seu mau feitio, na sua emoção, ou na rebeldia de um rapaz, na curiosidade imensa que tenham em descobrir o mundo. quero que fique em quem esteve comigo, que permaneça na sua existência e o acompanhe no sua imensidão.
quero um eu capaz de ser para lá dele, que arranque sorrisos, palavrões, gostos e não gostos a quem o conheceu. quero ser capaz de fazer a meu caminho e ao meu tempo o legado que dele sai. 

legado é o pleno de ser a ser, onde transformar é o segredo, a capacidade de sermos mais que um, de sermos sós e sermos outros, e de sermos com todos os nossos "eus" os maiores caminhantes de um estrada onde o tanto que conhecemos é sempre tão pouco. 

que o meu legado nada mais seja, nada mais queira ou ouse ser, que eu! 
(assim se cumprirá por certo uma de tantas, e talvez uma entre as maiores missões de Ser(mos)!) 


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